My Guilty Pleasure

Ecos de um Azul Profundo.

Ontem, abri a galeria como sempre. E ela estava como geralmente a encontro. Silenciosa, quase solene... mas havia qualquer coisa no ar, uma espécie de electricidade fina, como antes de uma tempestade que ainda não decidiu se chega.


Rodei as chaves e entrei, segura de mim, como quem não pede licença. Tinha comigo o meu vestido preferido, feito de um azul profundo como um lago que esconde histórias, atravessado por linhas douradas que parecem mapas de caminhos que alguém já tentou, mas ainda ninguém terminou de percorrer. Adoro-o porque sei que ele tem um contraste estranho — luxo e enigma, ordem e desvio — como se cada padrão estivesse a tentar dizer algo diferente ao mesmo tempo.


Entrei devagar, e o vestido parecia respirar comigo. O azul profundo colava-se ao meu corpo como água morna, acompanhando cada curva com uma intimidade quase consciente. Os traços dourados deslizavam pela minha pele como caminhos secretos, chamando o olhar, não de forma óbvia, mas inevitável. Quem me via, demorava-se um segundo a mais. E esse segundo dizia tudo.


Os primeiros visitantes e clientes passaram, como sempre. Mas já não era só arte que observavam. Percebi que havia olhares que hesitavam no meu ombro, que seguiam a linha do meu pescoço, que desciam… e depois se desviavam, como se tivessem tocado algo proibido sem sequer encostar.


A determinada altura, alguém parou diante de um quadro esquecido, um auto retrato que tenho lá num canto da galeria. Chamou-me a atenção tal fixação e resolvi aproximar-me. Agora, esse visitante já não olhava para o quadro. Aquele mesmo olhar, cada vez mais perto, percorreu-me com uma lentidão estudada, não invasiva, mas precisa. Como quem reconhece um segredo no corpo de outra pessoa.


Instalou-se, de repente, um silêncio estranho. Denso. Quase táctil.


Entretanto, ao mesmo tempo e do outro lado da sala, uma escultura de vidro junto à janela parecia ter mudado ligeiramente — como um corpo que se reposiciona depois de ser observado. A luz que atravessava o vidro agora incidia sobre mim de forma diferente, desenhando sombras que dançavam sobre o vestido… e sobre a minha pele, melhorando a possibilidade de visão do estranho.


Como eu senti isso! Era como se o espaço e ele estivessem a tocar-me sem mãos.


Mais tarde, ao passar segunda vez pelo auto retrato no fundo da galeria, o mundo vacilou por um instante. O seu conteúdo devolveu-me… mas não exatamente como eu sou. O vestido parecia ainda mais ajustado, mais próximo — como se tivesse aprendido melhor o movimento do meu corpo ao longo do dia. Os padrões dourados já não eram apenas decoração: insinuavam movimentos, quase como dedos a traçar linhas invisíveis. E por um segundo, breve, mas impossível de esquecer, por causa do quadro, do visitante e da escultura, tive a sensação de não estar sozinha dentro do meu vestido.


Foi então que pisquei os olhos e tudo voltou ao lugar. Ou quase...


Horas mais tarde, ao fechar a galeria, com a luz a cair devagar e o silêncio a ganhar peso, passei novamente, pela terceira vez, pelo quadro esquecido e parei... Algo tinha mudado. Os olhos pintados nele pareciam ter vida, estavam diferentes, eram-me familiares...


E entre os tons neutros daquele auto retrato que um dia me fizeram, da primeira vez que usei este vestido, agora havia um detalhe novo... o padrão azul era ainda mais dourado, vivo e pulsante, como se tivesse sido acabado de pintar… ou transferido.


Aproximei-me e então percebi... o desenho não era apenas igual ao do meu vestido. Agora, era igual… à forma como ele se moldava em mim. Era como se o visitante não tivesse apenas observado. Era como se tivesse sentido, guardado e, transgredindo (porque num museu ou numa galeria, não se toca, nem se mexe), tocado, do mesmo modo de quem toca em pele que não esquece o toque, mesmo depois dele desaparecer.


Saí e ao atravessar a porta e sentir o ar da noite, algo não bateu certo, porque pela primeira vez, desde que uso este vestido, mesmo tendo-o ainda colado ao meu corpo, senti que uma parte dele e de mim ficou para trás, do lado de dentro da porta, na galeria silenciosa, longe da rua e do mundo, porque os olhos no quadro reinvindicaram parte dele e foram quem conseguiu, finalmente, descodificar as linhas douradas no meu vestido, que parecem mapas de caminhos disponíveis para alguém que parece ter tudo para, um dia, que sabe, ter o privilégio de percorrer.


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