Hoje o meu estado de espírito sente-se como quem lê luz numa tela. Hoje não estou para o óbvio, nem é dia de me esconder atrás de neutros apagados. É primavera, mas não ingénua. É aquela primavera segura de si, que já sabe o que vale.
Em dia de reunião importante, daqui a pouco, quando entrar na galeria, sei que vou tentar vender arte, mas também vou querer deixar aquela impressão que não se esquece.
Assim, hoje, ao olhar para o meu closet, vejo-me a trocar o previsível por algo com tensão. Talvez seja o dia certo para vincar uma silhueta mais definida, aparentemente clássica, mas com um ou outro detalhe traiçoeiro... um decote subtil, um tecido ligeiramente translúcido à luz certa, ou botões estrategicamente indecisos.
A paleta até pode escurecer um pouco e trazer à tona cores que não pedem aprovação. E o salto pode ser hoje mais fino e mais alto do que o prático, não para caminhar, mas para marcar território.
Não vou exagerar nos acessórios, mas vão ser escolhidos como quem escolhe palavras numa negociação. Um anel que chama a atenção quando gesticulo. Talvez brincos discretos, para não competir com o olhar, até porque hoje o meu olhar quer fazer metade do trabalho.
Quanto à maquilhagem, a mesma base impecável de todos os dias, mas com foco num eyeliner mais afiado, ou num batom que não peça desculpa. Nunca os dois... Eu sei disso.
Vou deixar o cabelo ligeiramente indomado. Não desleixado, mas livre. Como se dissesse que não controlo tudo, apenas o que realmente importa.
Hoje preciso daquela precisão que retire a quem observa qualquer ambiguidade: não é só presença, é intenção. É conseguir descobrir aquele equilíbrio raro, profissional o suficiente para fechar negócio e magnético o suficiente para abrir possibilidades.
